Como a desigualdade molda nossas vidas

Texto por Roderick Long — Traduzido por FAL3

Como a desigualdade molda nossas vidas (Parte 1)

Aqueles que consideram a desigualdade socioeconômica um problema sério são frequentemente acusados de “invejosos”, como se essas preocupações fossem simplesmente uma questão de relutância em alguém comer mais biscoitos do que nós.

Acho que essa reação é a de quem não entendeu o ponto de várias maneiras; deixe-me falar um pouco sobre apenas uma dessas maneiras:

Suponha que você esqueça de pagar sua conta de luz (ou sua conta de telefone, ou sua conta de tv a cabo, ou sua conta de acesso à internet, ou sua conta de cartão de crédito, ou qualquer outro). O que acontece? Seu provedor te desconectará e você provavelmente terá que pagar uma taxa extra para que o serviço seja restabelecido. Você também ganhará uma expressão carrancuda em seu relatório de crédito.

Por outro lado, suponha que, por qualquer motivo (falhas de internet, linhas de energia que caíram após uma tempestade, ou sei lá mais o que [1]), você sofra uma interrupção temporária do serviço de seu provedor. Eles se ofereceriam para reembolsar você? De jeito nenhum. E não há maneira fácil de você colocar uma cara carrancuda no relatório de crédito deles.

Agora, se você aluga sua casa, dê uma olhada no seu aluguel. Você escreveu isso? Claro que não. Você e o senhorio [2] escreveram juntos? De novo, claro que não. Foi escrito pelo ”locador” (ou pelo advogado do seu ”locador”) e contém muito mais estipulações das suas obrigações para com ela do que das obrigações dela para com você. Pode até conter linguagem ameaçadora e abrangente como “o locatário concorda em cumprir todas as instruções e regulamentos adicionais que o locador pode fornecer de tempos em tempos” (o que, se tomado literalmente, não seria muito tímido para um contrato de escravidão). Se você atrasar o pagamento do aluguel, o proprietário pode cobrar uma taxa punitiva? Pode apostar. Por outro lado, se ela se atrasar para consertar o banheiro, você pode reter uma parte do aluguel? Apenas tente.

Agora pense em seu relacionamento com seu empregador. Em teoria, você e ela são indivíduos livres e iguais, firmando contratos para benefício mútuo. Na prática, ela provavelmente ordena as horas e os minutos do seu dia com detalhes exatos. Como no caso do senhorio, o contrato é fornecido por ela e visa beneficiá-la. Ela também se compromete a interpretá-lo; e você se verá sujeito a muitos regulamentos e diretivas com as quais nunca concordou. E se você tentar inventar novas obrigações para ela como ela faz para você, prevejo que ficará, digamos, desapontado.

Estes não são apenas casos de algumas pessoas tendo mais coisas do que você. São casos em que algumas pessoas são sistematicamente autorizadas a ditar os termos em que outras pessoas vivem, trabalham e comercializam. E geralmente tomamos isso como certo. Mas não é óbvio que as coisas tenham que ser assim.

Quando se trata de diagnóstico e prescrição, aqueles que se preocupam com a desigualdade socioeconômica tomam duas direções diferentes. Alguns identificam o mercado livre como a causa de tal desigualdade e a regulamentação governamental como a cura; para outros, é exatamente o contrário. Estou obviamente estou alinhado com o último grupo; todos os fenômenos que mencionei são possibilitados por restrições sistemáticas à concorrência. Os libertários precisam passar mais tempo focalizando a liberdade como solução para essas assimetrias generalizadas de poder, em vez de dar a impressão de que não as consideram problemáticas.

Como a desigualdade molda nossas vidas (Parte 2)

Meu amigo Bryan Caplan tem uma resposta ao meu post recente sobre a desigualdade. Estou me preparando para deixar minha cidade e ir para a Alabama Philosophical Society e provavelmente não terei a chance de responder em detalhes até eu voltar. (Isso também se aplica à seção de comentários de minha postagem anterior, que não tive a chance de olhar.) Mas três pontos curtos por agora:

a) A resposta de Bryan se concentra nas maneiras pelas quais os mercados livres resolveriam os problemas que aponto se fossem realmente problemas. Mas o ponto principal da minha posição é que não temos um livre mercado! Os libertários de esquerda apontaram em detalhes as maneiras pelas quais os mercados de habitação e de trabalho, por exemplo, são enviesados em direções oligopolistas e oligopsonistas, respectivamente. Ao ignorar essas análises em vez de refutá-las, Bryan na verdade presume que os problemas não existem; ele poderia muito bem dizer “os impostos não podem ser muito altos, porque se fossem, os consumidores simplesmente mudariam para uma agência de proteção rival com taxas mais baixas.”

b) O fato de que os trabalhadores podem se esquivar, que os inquilinos podem ser delinquentes, etc., não vem ao caso. Já sabemos de antemão que cada parte de um contrato pode potencialmente atrapalhar a outra. A questão é que, dado esse contexto, os contratos são distorcidos para favorecer um lado. Essa distorção não é contrabalançada pela capacidade de inadimplência do outro lado, porque cada lado tem essa capacidade e um lado tem o contrato favorável adicional.

c) Sim, existem vários regulamentos que visam ajudar a parte mais fraca do contrato; mas os libertários de esquerda argumentaram em detalhes que esses regulamentos na prática tendem a ajudar a parte mais forte. Talvez estejamos certos sobre isso e talvez estejamos errados, mas pelo que eu sei, Bryan não abordou esses argumentos e dificilmente podemos fingir que não os fizemos.

How Inequality Shapes Our Lives

[1] Usei a expressão ”sei lá mais o que” para substituir ”who knows”.

[2] O termo usado originalmente foi ”landlord”.

Publicado por FAL3

https://medium.com/@fal3

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